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Poetas do Sertão


Chico Macena
Francisco alexandrino Gomes (Chico Macena) é agricultor, poeta e um dos sócios fundadores do CAATINGA. A sua vida é dedicada ao campo. Seu Chico Macena, acredita na luta por um Semi-Árido mais justo, e por isso ele recebe o carinho e o respeito de todos que fazem o CAATINGA.

 

O despertar do CTA
(Centro de Tecnologia Alternativa)

Vou descrever a história
Prestem todos atenção
Olhando as necessidades
Que sofre nosso Sertão
Como arrumar o meio
De melhorar a nação.

No ano oitenta e seis
Chegou nesta ocasião
Dentro de Ouricuri
Em uma reunião
Dois companheiros de luta
Que nos chamou atenção.

Chegaram dois cidadãos
Gente bem desconhecida
Fizeram apresentação
E contaram sua vida
Tendo um trabalho a fazer
Com toda a gente unida.

Só trabalhavam em grupo
Dentro da comunidade
Com gente comprometida
E disposta de verdade
Com pequeno produto
Que tenha capacidade.

Dirigiram ao presidente
E ele lhes prometeu
De arrumar um terreno
Vendo os delegados seus
Que conhece todo o campo
Para este centro seu.

Portanto aconteceu
De um terreno comprar
Bem pertinho da cidade
Para o centro assentar
Hoje já está conhecido
Por nome de CTA.

Depois do local comprado
Houve comunicação:
-Vamos fazer um encontro
Para toda a região
Convidando o pessoal
Pra ouvir a discussão.

Convidamos o presidente
Os delegados também
Com vários animadores
Que o município tem
Para se fazer um plano
Sem sujeitar a ninguém.

No dia saiu proposta
Do trabalho enfrentar
Agora de hoje em diante
Vamos juntos trabalhar
Ajudando todo mundo
Pra crescer o CTA.

O trabalho vai crescendo
Se espalhando talvez
Tem visita e encontro
E curso de mês em mês
Todas práticas que se mostram
Sendo uma de cada vez.

Tem trabalho de roçado
Que se tem a plantação
Tem cultura com abelha
Que chamou bem atenção
Já criou-se doze grupos
Em pequena região.

Tem a criação de cabras
E de galinha também
Que põem seis meses sem parar
Já despertou bem além
Que já tem em vários grupos
E o pessoal se deu bem.

Tem os porcos Sorocaba
Que vieram de outra região
Já tá ganhando valor
Que causa admiração
Mas eles só saem do centro
Se for em organização.

Só terão direito a eles
Se for grupo organizado
Que zele o patrimônio
Trate dele com cuidado
Que não tirem com a raça dele
Para não organizado.

O trabalhador rural
Que só quer aproveitar
Adquirir desta raça
E depois fora botar
É melhor que fique fora
Não queira em grupo entrar.

O centro tem o cuidado
Com todos que vem aqui
Sendo de comunidade
Dentro de Ouricuri
A todos nós tem mostrado
Cada trabalho daqui.

Neste centro tem seis técnicos
Todos eles têm cuidado
Durante os dias de curso
Tudo tem que ser mostrado
Tudo o que o centro tem
A vocês será falado.

Nos cursos se troca idéia
Ensinamos e aprendemos
Não somos só professores
Pra ensinar a pequenos
Vocês têm boas idéias
Um bom trabalho faremos.

Dos cursos já saiu deles
Quem já soube aproveitar
Tem um trabalho bonito
Que se pode acompanhar
Tem várias tecnologias
Pode até multiplicar.

Todos que vieram aqui
Ao curso visitar
Fossem bem interessados
Um trabalho começar
Garanto que grande passo
O CTA ia dar.

Nos sítios que já existe
Nova tecnologia
Que vai gente visitar
Voltam com grande alegria
As vezes até sai filmagem
Que é de muita valia.

Cada um que dá o curso
Tem uma coisa a mostrar
Toda tecnologia
que tem no CTA
os que tem a consciência
chega lá vai praticar.

Aqui se mostra o aprisco
Que é das cabras botar
Curva de nível na roça
Para a água não cavar
Cobertura neste chão
Pra o molhado guardar.

Tem também o galinheiro
Para as galinhas botar
Pra evitar da raposa
Ou o gato estragar
Para não se perder nada
Tem o ninho pra ponhar.

Tem pomar com várias plantas
Para o povo apresentar
Só se usa água servida
Pra elas se sustentar
Com cobertura na cova
Para bem aproveitar.

Tem condomínio de porco
Para melhor controlar
Tem vários compartimentos
Para quando precisar
Separar os pequeninos
Para os grandes não matar.

Tem banco de proteína
Onde as cabras vão pastar
E o barreiro trincheira
Para a horta aguar
E tem também apiário
Tudo neste CTA.

Tem a bomba de rosário
Que é pra água puxar
Não se precisa de corda
Só é colocar a água precisar
Só é colocar a lata
E em um veio rodar.

Tem também laboratório
Pra sementes pesquisar
Feito por duas pessoas
Para bem observar
Separando todo tipo
Pra melhor se trabalhar.

Com trabalho de sementes
Logo o banco foi criado
Em sete comunidades
Um trabalho preparado
Com treinamentos e práticas
De melhorar o roçado.

Nos treinamentos se vê
Quais são as necessidades
De se criar vários bancos
em todas comunidades
Com seleção de sementes
As de melhor qualidade.

Suprir as necessidades
Do nosso povo carente
Para o produtor plantar
De sua própria semente
Pra se livrar de empresas
Que só quer dinheiro da gente.

A seleção de sementes
Faz a planta melhorar
A cultura é mais sadia
E melhor de germinar
É mais bonita e mais forte
Pra este mundo mudar.

Nos experimentos já vimos
Também nos mini-roçados
Entrando algumas práticas
Do jeito que são plantados
Tem cem por cento a mais
Do jeito acostumado.

Os trabalhos que fazemos
Ada um tem um sentido
Diminuir com os custos
Criar-se desenvolvidos
Crescer o conhecimento
E formar grupos unidos.

Tem coisa que é de grande
E pobre não pode usar
Mas com tecnologia
Ele pode preparar
Um que faz a mesma coisa
Sem dinheiro ele gastar

Tem um trabalho no sítio
Com um material seu
Cada um tem o cuidado
De medir o que choveu
Quando termina o inverno
Sabe o que se sucedeu.

Este é o pluviômetro
Que todos podem pegar
É bem fácil de fazer
Para a chuva ele marcar
Para trabalhar seguro
Pra semente não percar.

Com trabalho de abelha
Se presta grande atenção
Olhando a florada
De toda vegetação
Para ver qual é a olanta
De sua alimentação.

Quando se faz o trabalho
Prestando bem atenção
Ver o que abelha pega
Da flor da região
Se é própolis ou samburá
Ou mel para alimentação.

Da flor é tirado o mel
E o samburá também a própolis é da resina
Da árvore que chora bem
Tudo isto tem a ver
Com quem quer olhar além.

Muita gente que trabalha
Não sabe se preparar
Com a abelha é diferente
Sabem bem aproveitar
Tudo quanto ela tira
Guarda pra se alimentar .

Abelha só passa fome
Quando não chove no chão
Quando ela não alcança
A florada no Sertão
Precisa até se mudar
Para outra região.

Tem outras coisas aqui
Que eu não pude falar
Mas quem quiser conhecer
Venha aqui no CTA
Sendo de comunidade
A vocês vamos mostrar

Tenho o trabalho de base
Gosto de ter atenção
Eu conheço bem a terra
Quase em toda região
Tenho cinqüenta e seis anos
Roça é a solução.

Tenho meu conhecimento
De tudo que vou fazer
Sou Francisco Alexandrino
Gosto de dar parecer
Dentro da agricultura
Tenho muito que aprender.

Tudo de conhecido
Eu falei para você
Só falta fazer esforço
Vá no centro que tu vê
Tem coisa interessante
Só vendo, então, pode crer.

Vou ficando por aqui
Não vou mais adiantar
Eu escrevi o que pude
Sem nada eu alterar
Só coloquei a verdade
Que tem neste CTA.


Francisco Alexandrino Gomes
Sítio Ponta da Serra – Ouricuri – PE.

19/10/1989

Se não existisse a água, como seria a natureza?

Levantei na madrugada
Fui para a mesa escrever
Peguei papel e caneta
E comecei a reler
Se não houvesse água na terra
Como poderia ser?

Primeiro não teria o homem
Para o mundo controlar
Não teria nem um vivente
Para a terra povoar
Só poderia ter o vento
Para nesta terra soprar.

Não teria avião voando
Para as coisas carregar
Não teria o trem de carga
Para nesta terra andar
Não teria bicicleta
Nem teria quem fabricar.

Não teria nem um pé de pau
A terra seria descoberta
Só para o vento passar
Em hora e minuto certo
Só haveria sol e luz
E o mundo seria deserto

Não teria poço nem cacimba
Nem gente pra cavar
São Francisco não haveria
Para a água transportar
Não teria a transposição
Não haveria nem o mar.

Sem a água não teria os pássaros
Para de manhã cantar
Não teria preá nem peba
O tatu nem o gambá
Não teria onça pintada
Nem gato maracajá.

Sem água não teria boi
Ovelha e cabra também
Não teria burro e cavalo
E nem jumento pra ninguém
Não teria o grande camelo
Nem lá em Jerusalém.

Portanto caros colegas
Já que tudo isso tem
O mundo cheio de tudo
Que é nosso bem
Vamos lutar pela água
Que é fruto do além???.
O vento leva a água
A terra bebe também
O fogo queima uma parte
É queimada por carro e trem
Ela vai diminuindo
E nós gastando o que temos.

Á água é nossa vida
Para beber e cozinhar
Para fazer remédios
Para as doenças curar
Para lavar as nossas bocas
E também para nos banhar.

Como seria o mundo vazio
Sem flor, sem folha e sem fruto
Sem verdura tudo seco
Tudo virando luto
Sem o homem nem mulher
E sem ter nem bicho bruto.

Só teria anjos de Deus
Cantando de alegria
Comendo o manjar do céu
Que tinha todos os dias
Não teria o tal do pecado
Para destruir um dia.

Se não existisse a água
O governo não haveria
Não teria o vereador
Nem padre na freguesia
Não teria o rei Herodes
Que falam as profecias.

Sem água não teria nada
Pode até se confirmar
Só terra e pedra quente
Sem nada pra contemplar
Somente os anjos de Deus
Poderia aqui passar.

As águas lavam os pecados
Que a nossa alma tem
Esfria aquilo que está quente
Não deixa dúvida a ninguém
É força que vem de cima
E tudo vem do além.

Como Adão vem o Jardim
Do Éden que foi criado
Entregue pelo criador
Para cultivar com cuidado
Tome conta com carinho
Com a força da bondade
Entregou tudo que tinha
Dentro do mato fechado
De todos os animais
Ele entregou um bocado
De todos os tipos de peixe
Dentro da água banhado.

Entregou terra molhada
Para a sua plantação
As sementes necessárias
Para a sua alimentação
Administrava tudo isto
Para toda a população.

O homem é perigoso
Desobedecendo ao pai
Quer saber tudo na vida
De tudo para onde vai
Sem saber o caminho certo
Para onde ele sai.

Eu faço cordel rimando
Com toda inteligência
Pedindo ajuda a Deus
O autor da providência,
Que ajuda a todo mundo
Que procura ver a ciência.

Eu vejo o mundo tão belo
Com toda sabedoria
Prestigiando a todos
Sem nada faltar um dia
Mato verde florescente
Sem água nada haveria.

Vamos unir nossas forças
E essa causa abraçar
Vamos defender a água
Que perto de nós está
Com toda força e coragem
Para ela não acabar.

Quem não luta pela água
Não sabe o valor que tem
Fica de braços cruzados
Não vai ajudar ninguém
Fica no meio da estrada
Espero o que vem.

A água é o meu tudo
Eu digo assim porque sei
Sou amigo deste líquido
Que sempre muito falei
Foi na força desta água
Que no colo eu me gerei.
 


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