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Dr. José Maria Almeida Marques Advogado e poeta do Sertão, admirado por todos que o conhece, pela sua simplicidade e sua capacidade de amar as pessoas e as coisas simples do nosso Sertão. Conheça um pouquinho desse Poeta.
Pediu-me a amiga Masa: "Zé, ligeiro que nem coice de preá, escreva u'as coisinhas para o CAATINGA." Fiquei ancho. Larguei o correr da pena. Digitei com(puta)dor. Trocadilho infame. Mas, meu analista me disse: "Dê mais valor à palavra." Espia! Entregou o galinheiro às raposas. Nasci aos 10/03/1947, em São Domingos, uma vilazinha perdida na Sesmaria de Buíque-PE, que olha para o Vale do Catimbau. Aos 3 anos migrei ao contrário. Fui com pai, mãe e irmã para Bodocó. Quem, de ali, se amonta no horizonte, a oeste fica o nada. Viagem de pau de arara. Levamos nosso bicho de estimação. Eu ele e minha irmã na carroceria. Um jegue chamado Chá Preto. Rumamos num entardecer sertanejo e sangrento. O bacurau cantava. Aquilo me deu um nó angustial e freudiano. Até hoje o pôr do sol me constrange. Eu gosto é das manhãs de abril. A estória de Chá Preto é mentira minha. Poeta mente. Quem viajou, assim, de Sertânia a Ouricuri, foi meu amigo Zé Américo. Achei tão bonito que incorporei. A história me buleversa. Alinhás, falar em incorporar, três poetas nim mim incorporam. "Ave, zi fio". Renan, ex-surfista, funcionário frustrado do Banco do Brasil, solteirão, que mora com a mãe em Paulista-PE. Mané de Julião, o mais safado deles, nascido em 15/02/1912, Sítio Cachoeira, Bodocó-PE, falecido em 13/08/1977. Foi, também, ladrão de bode.
E, "last but not least", Ana Leocádia, hoje com 56 anos, cabelo preto, curto e "punk", clara, uma cicatriz de estrela aveludada, no alto da coxa esquerda. Olhos castanhos, rapidíssimos. Mora em Ouricuri, casada, tem uma filha de 40 anos, chamada Janaína, que Ana diz ser de fabricação minha, por termos coabitado, ali entre 1964/65, nas altas terras do Vale do Cariri, Crato. Um filho, Normando, cujo nome sugeri, mas que é "made in" Evangelista, marido atual de Ana. De Renan compro poemas. Com Ana mantenho secreta correspondência e um amor platônico. Ela me manda versos e os autoriza publicar como meus. Mané, não, este está noutra esfera e faz de mim seu cavalo. Cada poema custa uma garrafa de cana "Chora na Rampa". O cara é libidinoso. Quando baixa, me faz apalpar bunda de mulher e, nos enterros (fila da puta), me faz rir alto.
No meu livro, Concebidos com Pecado, estamos os quatro. Ali, o poeta menor sou eu mesmo. Perdoai. Completei 60 anos 10 de março passado, dia do levantamento da Bandeira de São José. Inda tenho vontade de brigar em Goa. Por causa de uma falsa visita da "indesejada das gentes", que lá nos êrmos de Sipaúba responde por "Tirana", fiz uma promessa no túmulo de Frei Damião (ele tirou um sinal de sangue do rosto do filho de Eronice minha prima), de reencarnar a mim e à minha poesia em vida, porque, depois da morte, não há garantia, pois o Senhor dos Exércitos não é nenhuma Brastemp. Entonce, estou estuando poesia. Pode num prestar. Mas, tô. Zé Paulinho, outro amigo meu, diz que Fernando Pessoa quando fala "poeta é um fingidor", onde se lê fingidor, leia-se "fringidor". Concordo e me aproprio da idéia. Sem pejo. Já, já posso ser despejado da vida. Pra que pejo? Apois. Então, digo, vivo fringindo a areia da poesia no leito sêco do Riacho do Amparo. Moro há 40 anos no Recife, ..." águia sangrenta, leão ...", como registrou Carlos Pena. Pero, yo soy é do Araripe. E, ainda invocando Pessoa, brado aos 5 ventos: Existem muitas maravilhas no mundo. O Everest. A Catedral de Notre Dame. O Rio Nilo. A água mineral de Vichi. O casamento de Charles e Diana. Mas nada supera as maravilhas de minha aldeia. "Fala de tua aldeia e falarás do mundo", disse Tolstói. A Pedra do Claranã, mil metros acima da Serra do Araripe, que tem mais mil metros.
Já fui no cimo. Melhor que o Everest. Quando estou derrubado, com vontade de "mim" matar, não procuro a Mãe D'água, subo lá e some na hora a dor de existir. Pra que a goticidade de Notre Dame, se tenho a linha branca e humilde da igrejinha de São Vicente? E a vastidão do Nilo, se posso passear na areia limpa, que range, do Riacho do Pequí? Que, no inverno, quando bota, bota pra foder, inunda tudo, enterra cacimbas e traz piabas douradas não se sabe vindas donde. Meninos, quem já comeu piada dourada assada?
Assim como as pessoas, são as criaturas. Cada qual com seu caviar. A água mineral de Vichi? Vade retro. A da Cacimba da Simoa, mata a sede de gente e gado. Porque gado e gente não são diferentes. Casamento de Charles e Diana? Fichinha. Nupcial foi aquele de Raimundo, do Pau Preto, com Lurdinha, do Fundão. Três dias de samba, sem tirar de dentro. A latada e o chão cobertos, com folhas de eucalipto. Pense no cheiro, que tinha minha nêga chamada Tereza. E vamos no repente sertanejo, no martelo agalopado. Eu quero é o poema vomitado. Uma nova Luta Corporal. Eu tenho a pressa que aniquila o verso. O tempo, pra mim é crucial. João, sem dúvida é poeta, gênio. Mas chega da engenharia de Cabral. Viva o poema solto ao vento. Como almas secando no varal. O manifesto de 1922 precisa ser reinventado. Inventemos a putaria na poesia. Ainda que usando torto palíndromo. Dante, o caolho Camões, o cego Virgílio ofuscam. Mas, a Santíssima Trindade da poesia são quatro: Cego Poeira, de Bodocó, Cego Aderaldo do Crato, Cego Oliveira do Juazeiro e Patativa do Assaré. Verso não é transpiração. É inspiração. Augusto dos Anjos dizia que lhe vinha sensação de levitar, febre e vontade de chorar. Eu digo que é o ópio que mais nos aproxima de qualquer coisa que se chama Inteligência Superior. Nos faz procurar "palávaras".
Aliás, chega de aspear asperamente as palavras. - Meus amô, minha nêga, meu xodó, eu estou rapsodiando suncê. Minha língua absterge-te. Mandaçaia é o melhor mel. O bicho, que mata o homem, mora debaixo da saia. João do Vale dixe da cência da abeia. Inxú e Capuxú melifluam.[Captou, Capitú? Sob o arco-íris, quando chove no sertão, casamento da raposa com o rouxinol, olora. Tu precisas tomar o Bálsamo da Vida, da alquimia do Padim Ciço. Experimente camaleãozear no lajedo. Um dia. Dá o maior Nirvana. Bodocó é minha batata de Tiú. Antídoto contra a serpente que nos tirou o gosto de provar do fruto da árvore da eternidade. Ou foi Jeovah? De mais triste e singelo, na vida, só mesmo prostituta de fim de feira e casa de rebôco arruinada. Ali, velhas aranhas ancestrais urdem. Mais vale um ligeiro amor, que um grande poemeto. Eu me agarrei com Dadara. Mesmo ali no Beco Estreito. Assim como o diabo gosta. E nem o Bom Deus dá jeito. Chega de culpa católica. Satanãs com um espeto. Ave o Salmo dos Salmos. Luiz Cego vá com jeito. No teclado da sanfona. Ou da morena, no peito. Gastando o profumo dela. Cuma quem leva no eito. E pra terminar o ofício. Só lançando um epíteto. Vale mais quem deita e rola. Do que ter um bom conceito.
Zémaria, Renan, Ana Leocádia e Mané de Julião, em 18/03/2007, véspera do dia de São José (Não somos 300, como os de Esparta ou Mário de Andrade, mas combatemos, à sombra).
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O Ofício José Maria Almeida Marques
Todo poeta sofre de delírios noturnos, a vida lhe escorre entre os dedos das mãos, às vezes, em gotas de suores distônicos e quando escreve tem vontade de chorar. Todo poeta, engajado ou não, tem uma palavra encravada na garganta, na intrapele, no olho, no coração, no sexo, completando o ciclo e querendo aflorar. Todo poeta traz os punhos prontos para o poema ao ver a miséria derramada nas ruas, mas a mão também pressente a táctil sensação dos seios da definitiva amada, que lhe chegue, repentinamente, dizendo um poema de Lorca. Todo poeta incorpora um demônio específico, que lhe visita pontualmente, à meia-noite, e, de cócoras, num canto do quarto, fica mirando com olhos zombeteiros, puxando diálogos das coisas mais negras. Todo poeta herda, em contrapartida, um anjo da guarda, também específico, que lhe fica ditando coisas no ouvido, fazendo-o louvar as claras manhãs de abril.
Recado de Mãe José Maria Almeida Marques
Lembro, ainda, como se fosse hoje, do recado que mamãe me deu:
- Zé, se era prá você ter saído da nossa aldeia, prá estudar, se letrar , saber de tudo e depois ficar ateu, zombando de Jesus, venta empinada, duvidando até de vôo de passarinho, ficando noites e noites insone , matutando, buscando respostas até nas frestas das pedras, sofrendo do lado esquerdo do peito por qualquer mulher, pensando na morte da bezerra, se iludindo com poesia, francamente, meu filho, era melhor não ter ido.
(poemas do livro Concebidos com Pecado)
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Cacimba José Maria Almeida Marques
Eu tenho um tio, lá no sertão do Araripe, que há quarenta e cinco anos faz tudo do mesmo jeito, segue a mesma rotina. Quando vem a seca, atroz, ele cava dez metros, no leito seco do riacho, à sombra de uma frondosa baraúna, até a água límpida fluir na cacimba, para matar a sede de gente e de animais. Quando vem o inverno, a água da chuva rola caudalosa no riacho, levando detritos, areia e entupindo aquela cacimba e o trabalho de dez metros, que meu tio, sol queimando, cavou. Então, quando a seca vem de novo, está a cacimba ali, oculta, esquecida, coberta pela areia, sem ninguém ver. Aí, o meu tio Edson recomeça tudo e reescava no mesmo lugar, à sombra da frondosa baraúna, redescobrindo a mesma escada de acesso, os mesmos sapos hibernando, o mesmo límpido veio d’água, a mesma boa e velha cacimba, para matar a sede de gente e de animais.
Meu bem, minha nêga, meu xodó, é assim que eu queria o nosso amor
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MANIFESTO EM DEFESA DO FORRÓ DE PÉ-DE-SERRA
“Pernambuco tem uma dança que nenhuma terra tem...” (É frevo, meu bem – Mestre Capiba). “...Deus lhe pague esta esmola. Deus lhe leve num andor “arrudiado” de anjo e “cuberto de fulô”... (Cego Poeira, Bodocó).
Li, nesta pernambucaníssima Folha de Pernambuco, que o ilustre vereador de Caruaru, Marco Casé, tomou a iniciativa de fazer erguer, na Vila do Forró, uma estátua do Rei do Baião. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Louvado seja o vereador. Tomara que a estátua tenha o tamanho da do Padim Ciço, lá no Juazeiro. Pernambuco dá de 10 a 0 em qualquer estado do Brasil. Possui a mais rica e profícua variedade musical. Perdoem-me, nobres leitores, se esquecer de algo. Tem frevo, ciranda, maracatu, caboclinho, coco de roda, samba de latada, do brejo, ou “apracatado” (como diz Mestre João Silva). Tem baião, xote, xaxado, arrasta-pé, espécies do gênero forró, tudo da invenção do REI LUIZ. Ainda há o Balaio de Veremundo. O blues e o jazz não amarram nem a chuteira do forró.
Mas Pernambuco não pode se quedar “chorando a morte da bezerra!” É melhor ficar corado por um minuto, do que amarelar a vida inteira. Não adianta ficar só falando que o “axé” é isso, a “ôxente music” é aquilo e o vaneirão, aquilo outro. Valei-me as 7 chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo! Socorro, Mestre Ariano! Ajude-me, Mestre João Silva! Acuda-me, Onildo Almeida. Vamos à Cruzada. O Rei Ricardo Coração de Leão e Antônio Conselheiro haverão de nos ajudar. O Governador do Leão do Norte, também. Basta editar uma lei: “Art. 1° - Doravante, forró pé-de-serra e frevo têm que tocar em todo lugar. Art. 2° - Viva Deus e morra o cão, entupido de carvão. Art. 3° - Revogam-se as disposições em contrário. Registre-se. Publique-se, cumpra-se.”
Aqui no Recife somente duas rádios são a trincheira da pernambucanidade: a Rádio Folha, com Saulo Gomes (alô, Lina!), e Elias Lourenço – os amanheceres nordestinos – e a Rádio Universitária, com Ivan Ferraz. A santíssima trindade do nordeste é composta por Lampião, Luiz Gonzaga e Padre Cícero, mas, como os três mosqueteiros eram quatro, ainda tem Frei Damião. Os dois primeiros são pernambucanos. O terceiro é cearense, porém o Ceará merece. O último é italiano, mas é mesmo que ser pernambucano. Vamos unir cruzados e mouros. Os mosqueteiros citados e mais Saladino – comandante mouro – regerão as hostes sagradas. Jeovah e Allah são o mesmo Deus (viu, Bush?!!!).
Este velho poeta de Bodocó vai como recruta. Os Américos, Zé e Pedro, de Ouricuri, também vão. Alô Anselmo Alves, Zé Mário Austragésilo, Rinaldo Ferraz, Eduardo Leocádio, Luiz Ceará, Marcos Veloso, Secretário Roberto Peixe, Herbert Lucena, Sexteto Fim de Feira, vamos lutar a boa luta! Não sei cantar, tocar zabumba ou triângulo, mas faço uma zoada danada. Vou beber na fonte do maior poeta brasileiro, pernambucano do Recife, Manuel Bandeira, e inventar as mais belas palavras, por exemplo, o verbo intransitivo “Teadorar”: Teadoro, Teodora”. E chamando outra amada, disse o poeta: Vamos viver no nordeste, Anarina. Vamos viver de brisa, Anarina”. No solo sagrado do meu sertão do Araripe (aí, Exú, Bodocó e Ouricuri). Seremos os 300 de Esparta para pelejar a boa peleja. “Eu sou 300” – viva Mário de Andrade. Quem sabe os 30 de Pernambuco – Carlos Pena Filho: “São 30 copos de chopp / são 30 homens sentados / 300 desejos presos / 30 mil sonhos frustrados”.
PS. Brevemente lançar-se-á aos distintos leitores o cordel intitulado LAMPIÃO E GONZAGA, EM SANTA GUERRA, NA DEFESA DO FORRÓ DE PÉ-DE-SERRA.
José Maria (Almeida) Marques. Poeta pernambucano. (Folha de Pernambuco 22/06/07)
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