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Água Dona da Vida Hermes G. Monteiro
Água, Dona da Vida, Que cai do céu, pura e clara, Não é apenas bebida; É, no Sertão, jóia rara, Que garante o sustento, Produzindo o alimento, De quem, a terra prepara. Água, Dona da Vida, Essa força feminina, Tem idade indefinida, É velha, moça e menina; Tão velha quanto o horizonte, Nasce jovem, em cada fonte, Cumprindo, assim, sua sina. Água Dona da Vida, Que a sertaneja apara, São duas mães numa lida Cujo trabalho não pára: A água gera a fartura Que a mãe transforma em doçura Quando a comida prepara. A água se faz presente Nas mulheres do Sertão, No trabalho permanente De vencer a privação, Nas latas cheias pesadas, Nas vistas lacrimejadas, De quem sofre, em solidão. A água gera trabalho, Comida, eletricidade, Matéria pro agasalho, Riqueza para a cidade; Há de vermos tal riqueza Diminuindo a pobreza De nossa sociedade. Da água, dona da vida, Muitos querem ser seu dono, Há quem a queira contida, Gerando fome e abandono; Mas nosso povo já luta Pra mudar esta conduta Em um direito humano.
Água, mole, flexível, Que perfura a pedra dura, É força indescritível, Que não perde a brandura; Vem trazendo a paciência, Unida a persistência, Superando a desventura. Água, que a tudo lava, Eliminando a impureza, Levando o que sujava Através da correnteza; Maltratada e poluída, Retorna Dona da Vida, A ser, de novo, pureza! Água, Dona da Vida, Presente em todas nações; Teu exemplo nos convida A grandes reflexões; Que tua pura humildade Inspire na humanidade O amor nos corações.
O composto Hermes G. Monteiro
A nossa mãe natureza É dotada de riqueza Repare que coisa exata: Cada folhinha que cai Vira adubo e logo vai Fazer crescer mais a mata.
Copiando essa lição Toda nossa plantação Pode muito melhorar Basta estar bem disposto E fazer logo um composto Para a terra adubar.
O composto verdadeiro É um jeito bem ligeiro Do paú ser produzido Numa grande quantidade Sendo a sua qualidade Um negócio garantido
Agora vai a receita Para, de forma perfeita O adubo preparar O mato que foi cortado Coloque bem arrumado Cada um no seu lugar.
Vá fazendo as camadas Com as coisas encontradas Bem fácil, na região Folha, sabugo, capim Estrume, lodo e assim Cinza e palha de feijão.
Lembrando de aguar E ainda revirar Tendo o monte preparado O adubo parece A plantação logo cresce E o lucro é dobrado.
Novembro / 1989
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A Queimada Hermes G. Monteiro
Todo ano as queimadas, Devoram nosso Sertão Acabando com a madeira Deixando cinza e carvão Pouca gente hoje enxerga Essa tal destruição.
Pra fazer a plantação Tendo menos mão-de-obra Com a foice e o machado O matuto se desdobra Bota fogo e queima tudo Só o chão limpo é que sobra.
Morre o sapo e a cobra E os bichinhos da terra Que protege todo o solo No baixio e na serra Que acabam com as pragas Como se fosse uma guerra.
A queimada se encerra Usando coberta morta Conservando a madeira Pra fazer janela e porta E fazendo camalhão Do mato que se transporta.
Caatinga já não se corta Pois agora se arranca A planta, pela raiz Com o uso da chibanca Tendo o peso da galhada Servindo de alavanca.
O trabalho não empanca Se o mato é derrubado Deixando ele cair Todo para o mesmo lado Fica fácil organizar O camalhão no roçado.
O que foi apresentado Nesse verso pequenino Deve servir de lição Para que o nosso destino Possa ainda se livrar Do atual desatino.
O Barreiro Hermes G. Monteiro
Cada família precisa De um bem cuidado barreiro E se ele se localiza Bem pertinho do terreiro É tempo que economiza Menos força se utiliza O trabalho é mais ligeiro.
Buscar água nunca é Um trabalho pequenino Seja montado ou a pé Sofre o homem ou o menino Sofre Maria e José Por duas léguas, até Pra cumprir o seu destino.
A mulher segue na frente Com uma lata na cabeça Atrás, a filha inocente Logo que o dia amanheça Buscar água, minha gente É trabalho pra valente Ninguém nunca se esqueça.
Pra acabar com o sofrimento E a dureza que hoje há Fizemos um experimento Cá dentro do C.T.A.: - um barreiro sem cimento Que protege contra o vento A água que fica lá.
Ficando assim protegida A água desse barreiro Dá pro gasto e a bebida Sem faltar o ano inteiro Facilitando a vida Mostrando pra quem duvida Um caminho verdadeiro.
Se uma adivinhação Fizeram por brincadeira “o que é bem compridão Guarda água a vida inteira Torto, igual a cobra no chão?” Diga sem vacilação: “É um barreiro trincheira!”
Pois é esse o nome dado Para essa inovação Que dá melhor resultado Quando é feito em mutirão Já que não fica pesado Se tudo é realizado Com o povo em união.
Pra quem quiser conhecer Essa grande novidade E de perto poder ver visite a propriedade De quem já fez para crer Ou então pode escrever Pro C.T.A na cidade.
Em angico e Jatobá Chico Macena e Assis Já escavaram por lá Um barreiro, que se diz É bom, bem feito e dá De mostra pra quem ta Querendo ser aprendiz.
Vai agora pra vocês O endereço daqui: Caixa postal zero três Cidade de Ouricuri O CEP é cinqüenta e seis E duzentos – para o mês Queremos cartas aqui.
13-09-1989
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