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Poetas do Sertão


Hermes Monteiro
Atualmente é sócio fundador do Caatinga. Iniciou sua vida profissional como técnico no Centro de Tecnologias Alternativas de Ouricuri – CTAO, em 1986, onde deu uma grande contribuição para a formação agroecológica de centenas de jovens, homens e mulheres do Sertão do Araripe. Depois que o CTAO foi constituído na Organização Não Governamental CAATINGA, continuou por mais um tempo.


Mudou-se com sua família para Alagoas de onde retornou no início do ano de 1998 para assumir a Coordenação Geral do CAATINGA onde faz um brilhante e competente trabalho de reestruturação da Instituição, abalada por uma crise sem precedentes. Assim é Hermes Monteiro. Um profissional ético e idôneo que não mede esforços para, com competência, atingir os objetivos que lhe são confiados. Além da grande contribuição Política Institucional que deixou, ele também é um poeta do Sertão.


Água Dona da Vida
Hermes G. Monteiro

Água, Dona da Vida,
Que cai do céu, pura e clara,
Não é apenas bebida;
É, no Sertão, jóia rara,
Que garante o sustento,
Produzindo o alimento,
De quem, a terra prepara.
 
Água, Dona da Vida,
Essa força feminina,
Tem idade indefinida,
É velha, moça e menina;
Tão velha quanto o horizonte,
Nasce jovem, em cada fonte,
Cumprindo, assim, sua sina.
 
Água Dona da Vida,
Que a sertaneja apara,
São duas mães numa lida
Cujo trabalho não pára:
A água gera a fartura
Que a mãe transforma em doçura
Quando a comida prepara.
 
A água se faz presente
Nas mulheres do Sertão,
No trabalho permanente
De vencer a privação,
Nas latas cheias pesadas,
Nas vistas lacrimejadas,
De quem sofre, em solidão.
 
A água gera trabalho,
Comida, eletricidade,
Matéria pro agasalho,
Riqueza para a cidade;
Há de vermos tal riqueza
Diminuindo a pobreza
De nossa sociedade.
 
Da água, dona da vida,
Muitos querem ser seu dono,
Há quem a queira contida,
Gerando fome e abandono;
Mas nosso povo já luta
Pra mudar esta conduta
Em um direito humano.

Água, mole, flexível,
Que perfura a pedra dura,
É força indescritível,
Que não perde a brandura;
Vem trazendo a paciência,
Unida a persistência,
Superando a desventura.
 
Água, que a tudo lava,
Eliminando a impureza,
Levando o que sujava
Através da correnteza;
Maltratada e poluída,
Retorna Dona da Vida,
A ser, de novo, pureza!
 
Água, Dona da Vida,
Presente em todas nações;
Teu exemplo nos convida
A grandes reflexões;
Que tua pura humildade
Inspire na humanidade
O amor nos corações.

 

O composto
Hermes G. Monteiro

A nossa mãe natureza
É dotada de riqueza
Repare que coisa exata:
Cada folhinha que cai
Vira adubo e logo vai
Fazer crescer mais a mata.

Copiando essa lição
Toda nossa plantação
Pode muito melhorar
Basta estar bem disposto
E fazer logo um composto
Para a terra adubar.

O composto verdadeiro
É um jeito bem ligeiro
Do paú ser produzido
Numa grande quantidade
Sendo a sua qualidade
Um negócio garantido

Agora vai a receita
Para, de forma perfeita
O adubo preparar
O mato que foi cortado
Coloque bem arrumado
Cada um no seu lugar.

Vá fazendo as camadas
Com as coisas encontradas
Bem fácil, na região
Folha, sabugo, capim
Estrume, lodo e assim
Cinza e palha de feijão.

Lembrando de aguar
E ainda revirar
Tendo o monte preparado
O adubo parece
A plantação logo cresce
E o lucro é dobrado.

Novembro / 1989
 

A Queimada
Hermes G. Monteiro

Todo ano as queimadas,
Devoram nosso Sertão
Acabando com a madeira
Deixando cinza e carvão
Pouca gente hoje enxerga
Essa tal destruição.

Pra fazer a plantação
Tendo menos mão-de-obra
Com a foice e o machado
O matuto se desdobra
Bota fogo e queima tudo
Só o chão limpo é que sobra.

Morre o sapo e a cobra
E os bichinhos da terra
Que protege todo o solo
No baixio e na serra
Que acabam com as pragas
Como se fosse uma guerra.

A queimada se encerra
Usando coberta morta
Conservando a madeira
Pra fazer janela e porta
E fazendo camalhão
Do mato que se transporta.

Caatinga já não se corta
Pois agora se arranca
A planta, pela raiz
Com o uso da chibanca
Tendo o peso da galhada
Servindo de alavanca.

O trabalho não empanca
Se o mato é derrubado
Deixando ele cair
Todo para o mesmo lado
Fica fácil organizar
O camalhão no roçado.

O que foi apresentado
Nesse verso pequenino
Deve servir de lição
Para que o nosso destino
Possa ainda se livrar
Do atual desatino.

 

O Barreiro
Hermes G. Monteiro

Cada família precisa
De um bem cuidado barreiro
E se ele se localiza
Bem pertinho do terreiro
É tempo que economiza
Menos força se utiliza
O trabalho é mais ligeiro.

Buscar água nunca é
Um trabalho pequenino
Seja montado ou a pé
Sofre o homem ou o menino
Sofre Maria e José
Por duas léguas, até
Pra cumprir o seu destino.

A mulher segue na frente
Com uma lata na cabeça
Atrás, a filha inocente
Logo que o dia amanheça
Buscar água, minha gente
É trabalho pra valente
Ninguém nunca se esqueça.

Pra acabar com o sofrimento
E a dureza que hoje há
Fizemos um experimento
Cá dentro do C.T.A.:
- um barreiro sem cimento
Que protege contra o vento
A água que fica lá.

Ficando assim protegida
A água desse barreiro
Dá pro gasto e a bebida
Sem faltar o ano inteiro
Facilitando a vida
Mostrando pra quem duvida
Um caminho verdadeiro.

Se uma adivinhação
Fizeram por brincadeira
“o que é bem compridão
Guarda água a vida inteira
Torto, igual a cobra no chão?”
Diga sem vacilação:
“É um barreiro trincheira!”

Pois é esse o nome dado
Para essa inovação
Que dá melhor resultado
Quando é feito em mutirão
Já que não fica pesado
Se tudo é realizado
Com o povo em união.

Pra quem quiser conhecer
Essa grande novidade
E de perto poder ver visite a propriedade
De quem já fez para crer
Ou então pode escrever
Pro C.T.A na cidade.

Em angico e Jatobá
Chico Macena e Assis
Já escavaram por lá
Um barreiro, que se diz
É bom, bem feito e dá
De mostra pra quem ta
Querendo ser aprendiz.

Vai agora pra vocês
O endereço daqui:
Caixa postal zero três
Cidade de Ouricuri
O CEP é cinqüenta e seis
E duzentos – para o mês
Queremos cartas aqui.

13-09-1989
 

 

 


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