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15/05/2012

Jornal do Commercio: Eles fazem chover no meio da seca

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JC encerra hoje a reportagem sobre a pior seca dos últimos 40 anos, contando histórias de um Sertão que pode ser verde e fértil até na adversidade

 

Por: Ciara Carvalho/Jornal do Commercio

 

João Santana alimenta os bichos com as plantas do sítio | Foto: Ricardo B. Labastier/JC Imagem

 

O caminho para o Sítio Croatá, na zona rural de Bodocó, no Sertão do Araripe, segue o rastro da fome. Na beira da estrada, a pele seca da vaca morta indica que o animal tombou faz alguns dias. Tudo em volta é desolação. O milho seco virou palha antes mesmo de ser colhido. A última notícia de chuva na cidade foi em março deste ano. De lá para cá, nem mais uma gota. “Vamos em frente. Onde aparecer o verde, é a casa de seu Antônio Santino”, orienta Lourisvanda de Souza, guia da reportagem do JC na difícil tarefa de encontrar esperança no meio de tanta destruição. Alguns metros adiante, não há como errar. A modesta propriedade do agricultor Antônio Santino de Freitas, 67 anos, é uma surpresa para olhos e ouvidos já calejados pelos relatos e imagens da seca.

Na lavoura, o improvável brota da terra: pés de alface, coentro, cenoura, chuchu. Hortaliças e verduras, todas cultivadas sem um pingo de agrotóxico. Em pouco mais de dois hectares, espalham-se também fruteiras variadas. Tem goiaba, manga, maracujá, banana. Basta esticar a vista e enxergar o contraste. No terreno vizinho ao do agricultor, só pasto seco. É fácil entender o milagre da fertilidade em meio à terra arrasada. Ele é fruto de iniciativas simples, tecnologias baratas e, sobretudo, de uma mudança de mentalidade no trato com a terra.

O início, como todo começo, foi difícil. Com a ajuda da ONG Caatinga, que atua há 25 anos no Araripe, o agricultor conseguiu construir uma cacimba. “Nossa primeira tentativa, sozinhos, foi um desastre. Cavamos uma cacimba meia-sola e com pouco tempo ela desmoronou. O Caatinga nos orientou, deu o material, entramos com a mão de obra e aí a coisa deu certo”, conta Lindomar Santino de Freitas, 39, filho de Antônio Santino e braço direito do pai. O passo decisivo para fazer a pequena revolução na lavoura eles também aprenderam com a ONG. Montaram um sistema de aspersão simples, com canos finos e baratos, que leva a água da cacimba e de um barreiro para matar a sede das hortaliças, verduras e frutas.

Lindomar lembra que, na época, tentou o apoio de outros agricultores vizinhos, que já tinham poços em suas propriedades. Juntos, instalariam um sistema de gotejamento de água que alimentaria a todos. Mas nenhum se interessou. “Eles estão acostumados a viver esperando a chuva cair do céu. Depois de apanhar anos e anos, o sertanejo não pode mais aceitar viver assim”, ensina. Se tivesse hoje só no milho e no feijão, a família Santino estava, como milhares de outras, dependendo de cesta básica do governo para comer. “No começo, disseram que a gente estava doido, mas hoje, perto do que a gente era, posso dizer que sou um homem milionário”, orgulha-se seu Antônio Santino, com uma altivez que faz jus à imagem forte do homem do Sertão.

PROFESSOR PARDAL – Não depender da esmola do governo é realmente um luxo para o sertanejo machucado pela seca. Foi cansado de esperar pelos caprichos do céu e por obras estruturadoras que nunca chegam que o agricultor João Antônio de Santana, 75, aprendeu a fazer chover. A sua propriedade, a poucos quilômetros do Centro de Ouricuri, também no Sertão do Araripe, é um laboratório de boas, simples e eficientes ideias. Além do sistema de aspersão, que garante água para uma lavoura verde e diversificada, seu João reaproveita tudo que a terra produz. Praticamente não depende do farelo comprado no armazém. Alimenta suas ovelhas com palha de milho e plantas como o sorgo e a leucena, misturadas e armazenadas no processo de silagem, o que garante um animal gordo o ano inteiro. As plantas viram comida para os bichos e o que sobra da ração volta para a terra em forma de adubo.

Seu João Santana tem o dom da curiosidade. É uma espécie de Professor Pardal do campo. Não tem medo de experimentar. Quando a ONG Caatinga chegou pelas suas bandas, discutindo formas de captar água da Barragem do Tamburiu, ele foi um dos primeiros a acreditar na possibilidade de um amanhã diferente. Apostou no sistema racional de uso e distribuição de água, ensinado pela ONG, e ajudou a levar a tecnologia para os vizinhos. “Quem ficou plantando capim, veio a seca e dizimou tudo. Já passei muito aperto com a estiagem. Foi o sofrimento que me ensinou a fazer diferente”, diz o agricultor que, em sua linguagem simples, ensina uma sábia lição. “O agricultor só precisa de um empurrãozinho. Quando ele avistar a lavoura verde e o gado gordo, vai se animar e não quer mais saber de viver sofrendo com a seca.” Um pensamento óbvio, mas ainda raro no Sertão.