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Produção de sequeiro: segurança alimentar e construção de conhecimento agroecológico

Em 1988 nasce o Caatinga e com ele a esperança de melhorar os sistemas de produção da agricultura familiar do Sertão do Araripe e os meios de vida de milhares de famílias agricultoras. Um dos primeiros passos foi entender os sistemas de produção locais, suas fragilidades e pontos fortes, bem como se apropriar das dinâmicas sócio-políticas e ambientais, objetivando atingir a sustentabilidade dos sistemas de produção da agricultura familiar nesta parte do semi-árido.

Foram muitas as articulações; projetos negociados e propostas de tecnologias de convivência com o semi-árido. Hoje, o projeto apoiado pelo consórcio União Européia, Oxfam GB, Oxfam-Novib e Intermón-Oxfam, cujo objeto central trata da segurança alimentar e nutricional e do acesso a mercado para agricultores com produção de base familiar, tem impacto na melhoria de vida das famílias agricultoras a partir do conhecimento adquirido nos eventos de formação (cursos, visitas de intercâmbio, participação em seminários e oficinas) e na participação em pesquisas e experimentos realizados na perspectiva da construção de conhecimento agroecológico. Agora vamos conhecer a experiência da família de Seu Assis Teixeira e de Dona Sinhá, uma entre as 6000 famílias beneficiadas com a ação do Caatinga.

A experiência da família Teixeira

Assis Teixeira e sua esposa Inocência ValérioA família de Assis Teixeira foi uma das pioneiras no trabalho. Eles testaram diversas tecnologias, como a criação de abelhas, o barreiro trincheira, o manejo de caatinga e adotaram formas de trabalhar com a agricultura agroecológica. Assis sempre foi defensor do trabalho para uma agricultura sustentável que respeitasse a natureza. É sócio fundador do Caatinga e multiplicador de experiências agroecológicas. A partir do que assimilou do trabalho desenvolveu um sistema de produção de grãos para a segurança alimentar de sua família, um sistema que ele chama de permanente, pois cultiva há dez anos na mesma área eliminando a prática de desmatamento de novas áreas para cultivo e melhorando a fertilidade do solo a cada ano.

Assis Teixeira mora no Sítio Angico (Ouricuri) com sua esposa Inocência Valério mais conhecida pelo apelido carinhoso de Sinhá. O Casal tem três filhos e duas filhas. Seu Assis é um dos agricultores pioneiros no trabalho de transição para a agroecologia. Hoje ele tem consolidadas as práticas de adubação orgânica utilizando o esterco de vacas e de ovelhas; o controle de pragas e doenças das plantas, com defensivo natural; e, a seleção de sementes, principalmente de feijão, milho e sorgo. Essas três práticas combinadas garantem o “alimento para a família”. Assis afirma que “o mais importante é ter o alimento para o consumo do ano”.

O senhor Assis Teixeira, fala com prazer no defensivo de folhas de maniçoba, pinha e nim, que ele próprio inventou para combater as pragas da lavoura. As três plantas usadas são facilmente encontradas e o defensivo é feito durante o inverno quando as plantas têm folhas. Ele observou que nenhuma praga atinge estas três plantas que são tóxicas para insetos. “Achamos por bem juntar tudo e fazer o defensivo mesmo sabendo que quando usamos durante muito tempo os insetos se acostumam”. A experimentação começou em 1999 e a primeira aplicação foi em lagarta e pulgões de feijão. “Quando eu vi dando certo eu comecei a incentivar outras pessoas a usar também”. Essa preocupação de Seu Assis e da sua família, ocorreu pela preocupação do uso indiscriminado de agrotóxicos.

Eles contam que essa preocupação aumentou a partir do momento em que os vizinhos começaram a usar venenos para matar pragas dos cultivos. Relatam casos de intoxicação de crianças e o incômodo sofrido por uma das filhas que teve perda de galinhas no terreiro, provavelmente porque consumiram lagartas envenenadas no cultivo do vizinho. Tal preocupação levou Assis a buscar uma solução a partir do uso de caldas feitas com folhas de plantas que não sofrem ataques de insetos. Depois de testar por dez anos e incentivar outras famílias vizinhas a usar, finalmente Assis se sente à vontade para indicar o defensivo que foi batizado de “teixeirão”, cuja receita e modo de aplicação encontra-se a seguir:

Forma de preparo e uso do “teixeirão”

Indicação
Controle de mosca branca, lagartas e pulgão, entre outros insetos mastigadores e sugadores.

Ingredientes

  • 1kg de folha de Nim;
  • 1kg de folha de pinha;
  • 1kg de folha de maniçoba;
  • 02 colheres de sabão em pó;
  • 02 colheres de querosene;
  • 02 colheres de desinfetante

Modo de preparar
Moa ou pise as folhas de nim, pinha e maniçoba, tudo junto. Depois dissolva a pasta de folhas moídas em 2 litros d’água. Nunca pegue na pasta de folhas, pois algumas pessoas tiveram coceira leve.

Deixe a solução descansar por 24 horas. Coe e guarde em vasilhame escuro. Agora já está pronto para usar. Segundo outros agricultores o produto estará bom para o uso depois de três dias e outros acham que estará bem forte depois de nove dias curtindo.

OBS: Havendo pressa no uso, pode dispensar as 24 horas de descanso, apesar do produto ainda não estar no seu potencial de eficiência máximo.

Forma de aplicação
A medida indicada é 200ml (um copo tipo americano) para 20 litros d’água. Misture bem, coe e coloque na bomba. Outros agricultores indicam uma dosagem maior e aconselham usar entre 1 e 3 copos do produto na bomba de aplicação.

Aplique sempre nas horas mais frias do dia, pela manhã ou no final da tarde. Melhor que seja no final da tarde. Faça apenas uma pulverização por semana. Às vezes, uma única aplicação é suficiente para controlar o ataque de pragas.

No nosso próximo número vamos conhecer mais técnicas importantes desenvolvidas para a convivência com o Semi-Árido, como seleção de sementes, banco de sementes, criação animal, comercialização, feira agroecológica, entre outras que estão sendo testadas e desenvolvidas com sucesso na Região do Sertão do Araripe, Sertão de Pernambuco.

A outra prática importante é a de seleção de sementes, da qual Assis não abre mão. Ele mantém um “banco” de sementes selecionadas por ele próprio, há mais de 20 anos. Assim a família não precisa mais comprar sementes, nem depende das sementes que o governo distribui. Segundo dona Sinhá “as sementes selecionadas fazem uma diferença muito grande, pois as plantas já nascem fortes”.

Juntas, as três práticas agroecológicas deixam as plantas mais fortes e sadias melhorando a produção. A família de Assis produz em média seis sacas de feijão; dez de milho e 38 de sorgo por ano, produção suficiente para alimentar a família e os animais de terreiro. Mas isso só é possível porque o solo está melhorando a cada ano e eles não precisam mais brocar nem queimar parte da Caatinga para plantar.

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