Institucional

  Programas

  Impactos da Ação Institucional

  Informativos

  Redes e Articulações

  Galeria

  Publicações

  Poetas do Sertão

  Experiências

  Público

  Contato

  Inicial

Desertificação e crise alimentar: a saída que vem do Sertão (Diário de Pernambuco 17/06/2008) Por: Sílvia Bessa

Por: Sílvia Bessa

Agricultores superam adversidade do clima e da terra empregando técnicas que protegem o meio ambiente.

A maior contribuição do Nordeste para o combate à desertificação e à crise alimentar mundial está nas mãos de 2 milhões de agricultores familiares da região. Menos dependente de produtos químicos, do petróleo e de máquinas, o sistema de cultivo deles baseia-se em princípios mais adaptáveis a um modelo voltado para a preservação do meio ambiente e ao aumento da produção de alimentos. No Sertão nordestino, milhares de homens e mulheres da zona rural já fizeram a descoberta da chamada agroecologia e têm enfrentado com altivez uma fome que atinge 7 milhões de sertanejos. A agroecologia não utiliza nenhum tipo de fertilizante químico ou agrotóxico, não agride o meio ambiente, não desmata e ainda alimenta a biodiversidade. Pelas experiências de sucesso e pela ousadia em quebrar uma cultura de cultivo convencional da terra, os agroecologistas da caatinga gozam de autoridade para falar hoje, Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca.

Uma equipe do Diario percorreu 5.400 quilômetros por seis dos nove estadosdo Nordeste para revelar quem são esses homens e mulheres. Durante 30 dias, a reportagem investigou o impacto social das iniciativas agroecológicas sobre as pessoas, inclusive jovens e crianças. Este caderno especial mostra a mudança do cotidiano de uma gente que investe na diversificação da roça com frutas e hortaliças orgânicas e que conseguiu melhorar a renda e a nutrição dos filhos. Os agricultores apostam nas vantagens de adubos naturais, acreditam no reflorestamento da mata nativa como forma de ampliação da biodiversidade e confiam no potencial da pecuária regional, na criação de galinhas caipiras e de abelhas para o desenvolvimento sustentável. A agroecologia do Sertão, assim como a bem-sucedida produção de regiões exportadoras de frutas de Petrolina (PE), merece ser reverenciada. Está florescendo em pequenos pedaços de terra que não interessam ao agronegócio e avança em regiões nas quais o senso comum diz que nada prospera.

A prática agroecológica utilizada nos sítios do Nordeste tem aprovação mundial. Ajudam a combater a degradação e a desertificação do solo - um processo que leva a terra à infertilidade e que tem como principais causas o clima e a ação indevida do homem. Cientistas de 60 países e das agência das Nações Unidas e do Banco Mundial endossaram, de forma indireta, as técnicas dos agricultores do Nordeste em abril deste ano, com o Relatório Internacional sobre Ciência e Tecnologia Agrícola para o Desenvolvimento (IAASTD, sigla em inglês). "É preciso trabalhar com a natureza para produzir mais e melhores alimentos", afirma o documento.

Os autores do IASSTD, espécie de Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC) da agricultura, querem multiplicar experiências como a da família de seu Antônio Bispo, de Bodocó (Sertão de Pernambuco, a 557 quilômetros do Recife). Ele, a mulher, filhas e o genro plantam sem usar veneno, diversificam a produção, colhem e vendem mais do que feijão e milho. Levam à mesa todos os dias cenoura, folhagens, beterraba, laranja, manga, banana, mamão. "E ainda me livrei das contas na bodega", comemora Bispo. Como outros agricultores agroecológicos, colhem os demais frutos: aprenderam sobre organização social. Ganharam novo status na comunidade, conquistaram mais auto-estima e influenciam o ensino nas escolas de seus municípios.

"É hora da gente começar a rediscutir o processo de produção e começar um trabalho de reeducação produtiva do Nordeste. O agricultor familiar tem um papel importante nisso. Temos de pensar numa agricultura que valorize as especificidades regionais e que se preocupe com a questão ambiental", disse ao Diario o coordenador geral do Programa Nacional de Combate à Desertificação (do Ministério do Meio Ambiente), José Roberto Lima, adiantando que lançará hoje, em Brasília, um livro de experiências comunitárias desenvolvidas pelo governo federal no semi-árido. Lima é um dos especialistas em mudanças climáticas e em segurança alimentar no Brasil ouvidos pela reportagem. Entre eles também o presidente da Agência da ONU para a Agricultura e Alimentos (FAO) no Brasil, José Tubino, e o cientista Eduardo Assad, pesquisador-chefe da Embrapa Informática Agropecuária e principal assessor da agricultura da equipe do IPCC do Brasil.

A pesquisa e as entrevistas foram completadas com uma profunda apuração de campo. A equipe do Diario percorreu dezenas de propriedades rurais onde se pratica a agroecologia. Todas elas situadas numa área onde as secas são mais intensas e que é conhecida pelos técnicos como "miolão do semi-árido", abrangendo terras da Bahia, Ceará, Pernambuco, Piauí e Rio Grande do Norte. Para mapear a área a ser percorrida, teve a consultoria de algumas das mais respeitadas ONGs do setor (Caatinga, Centro Sabiá, Diaconia, Ider e Moc) e contou com a ajuda de técnicos da Embrapa, Emater e do Projeto Dom Hélder (do Ministério da Agricultura). O esforço buscou trazer para o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca as histórias dos produtores agroecológicos da caatinga nordestina - no anonimato, e em condições adversas, eles estão plantando e colhendo de uma forma que ajuda o presente e o futuro do planeta.
 

Ovelhas e cabras, animais habituados à escassez (Diário de Pernambuco - 17/06/2008)
17 de junho de 2008

Por: Sílvia Bessa

O rebanho de ovinos corresponde a 8,5 milhões e acumulou crescimento considerável na última década, segundo a última pesquisa do IBGE sobre a Produção Pecuária Nacional
A adaptabilidade de cabras e ovelhas nas áreas suscetíveis à desertificação pode ser comprovada observando-se o rebanho nacional dos animais. Cerca de 90% das 9 milhões de cabeças de caprinos criados no Brasil estão nessas áreas, que abrangem um território de 1.3 milhão de quilômetros quadrados, concentrados principalmente no Nordeste. Na região, cerca de 55% do solo estão comprometidos, informa estudo do Programa Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAN-Brasil).

O rebanho de ovinos corresponde a 8,5 milhões e acumulou crescimento considerável na última década, segundo a última pesquisa do IBGE sobre a Produção Pecuária Nacional. As cabras e as ovelhas têm boa convivência com a seca porque, entre outros motivos, até mesmo as plantas da caatinga podem ser utilizadas para fazer o feno ou a silagem - forragem compactada que serve de alimento para eles.

Outra opção de fácil adaptação aos efeitos da seca que vem ganhando adeptos no semi-árido nordestino é a criação de abelhas nativas, africanas ou italianas. O Nordeste concentra 17% das colméias orgânicas brasileiras, ocupando com o Sudeste (18%) o segundo lugar do ranking nacional. Em primeiro lugar está a região Sul, segundo levantamento do Ministério da Agricultura, Pecuário e Abastecimento.

As colméias são chamadas "orgânicas" porque as abelhas produzem em matas limpas de agrotóxicos.

Seu Francisco Cosme de Oliveira, da Agrovila Nova Esperança (Ouricuri, PE), começou a trabalhar com apicultura em 1998 e, em anos bons, chega a colher cerca de 300 litros de mel. Ele combina a criação de abelhas com a de ovelhas, seguindo um princípio básico de convivência com o semi-árido de aproveitamento de espaços e diversificação da produção agropecuária.

Em Caraúbas, José Maria de Moura, conhecido como Zé de Chico, possui 21 colméias, e graças a elas recuperou a renda perdida por cajueiros dizimados pela praga do bicudo em toda a região do Sertão do Apodi. Zé de Chico mora com 11 irmãos e a muher, Fátima, no sítio Baixa Grande, de 46 hectares. As abelhas dele produzem o néctar do mel usando uma pastagem nativa livre de contaminação de agrotóxicos. Desde 2006 o apicultor ensina outros agricultores da região a manejar as colméias. É instrutor em um projeto intermediado pela ONG Diaconia e financiado pelo Banco do Nordeste, com recursos da Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho.
 

Voltar