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Bioma Caatinga

27/11/2017

Aconteceu em Ouricuri o III Circuito Estudantil de Poesias

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O Circuito estudantil de poesias é um projeto idealizado pelo Professor e poeta Juarez Nunes, que junto com poetas e poetisas ouricurienses e de outros municípios do Araripe, se propõe a levar a poesia, através da literatura de cordel e músicas regionais, com o objetivo de proporcionar o acesso à cultura local, a estudantes de escolas públicas.

 

O circuito acontece anualmente e está em sua terceira edição, de forma voluntária os artistas colocam seus dons a favor do fortalecimento e propagação da cultura local, esse ano o circuito conta com o apoio da ONG Caatinga e o SESC Ler de Bodocó.

Essa 3ª edição do circuito envolveu 10 escolas da cidade e de povoados (Jacaré, Jatobá, Lopes e Escolas Rural Ouricuri), com uma média de participação de pessoas 4.000 pessoas entre crianças, adolescentes, jovens e adultos da comunidade.

Outra forma de valorização dos artistas locais é através de homenagens em vida, todo ano o circuito presta homenagem a um artista da região, esse ano foi a vez do cantor e compositor ouricuriense Tacyo Carvalho, em função dessa homenagem o circuito foi aberto no dia 10 de Novembro no povoado do Jacaré, local de origem do artista homenageado, regado com muitos depoimentos de amigos, fãs e familiares os poetas e a comunidade do Jacaré, que se envolveu em toda a preparação arrancaram lágrimas do garotão de Ouricuri ( Apelido que o mesmo ganhou de Luiz Gonzaga, ainda na juventude).

 

O encerramento do circuito aconteceu no ultimo dia 23, na praça Frei Damião com muita poesia e forró com Vital Barbosa e Elmo Oliveira. Para o idealizador do evento é muito gratificante a participação da juventude. “ A gente se sente feliz em ver a juventude se envolvendo, durante esse circuito vários jovens despertaram para a poesia, recitaram e escreveram versos, isso é o que motiva a gente a continuar com esse trabalho” Afirma Juarez Nunes.

A perspectiva é que a cada ano, com ou sem apoio do poder público, o circuito cresça e chegue a mais pessoas.


22/11/2017

ANA divulga Carta Convocatória do IV ENA

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A Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) lança a Carta Convocatória do IV ENA – encontro que será realizado de 31 de maio a 3 de junho de 2018, em Belo Horizonte, Minas Gerais. O documento é um dos instrumentos de animação e organização dos processos de mobilização rumo a esta quarta edição do Encontro Nacional de Agroecologia (ENA). Apresenta os sentidos políticos, os objetivos e  as orientações estratégicas do IV ENA, traz sugestões para o processo de mobilização nos territórios, estados e regiões e elenca os temas que serão debatidos.

A Carta Convocatória destaca também que realizar o IV ENA no contexto de profunda crise que se vive no Brasil é um ato de resistência e de luta. para fazer acontecer esse encontro e todos os momentos preparatórios é importante que todos que fazem a ANA, organizações, redes e movimentos sociais, adotem uma perspectiva colaborativa; que em cada estado tenha uma pessoa de referência para conectar-se com as articulações regionais e comissão organizadora nacional.

O estímulo à produção e doação de comida de verdade, assim como de remédios caseiros para a partilha com os(as) participantes do ENA será tão importante quanto a venda dos produtos e interação com a sociedade na feira dos Sabores e Saberes. É muito importante também que as redes e articulações estaduais mobilizem recursos e
apoios para garantir o deslocamento das suas delegações até Belo Horizonte.

A expectativa é que o ENA reúna duas mil pessoas de todos os estados do Brasil, sendo 70% de agricultores(as) familiares, camponeses(as), povos indígenas, comunidades quilombolas, pescadores(as), outros povos e comunidades tradicionais, assentados(as) da reforma agrária e coletivos da agricultura urbana; 50% de mulheres e 30% de jovens diretamente envolvidas na construção da agroecologia em contraposição ao projeto dominante imposto por grupos do capital financeiro, industrial e agrário.

 Todas essas pessoas participarão de uma “constelação de atividades” em vários espaços que incluem feira de sabores e saberes, atividades culturais, mostra de cinema e debates públicos com momentos internos de aprofundamento de temas mobilizadores, em diálogo com organizações parceiras, na perspectiva de fortalecimento da luta por um sistema agroalimentar baseado na agroecologia e soberania alimentar.

Na região metropolitana de Belo Horizonte, há experiências pioneiras de agricultura urbana que dialogam com o direito à cidade. Há, ainda, iniciativas inovadoras de movimentos e coletivos que propõem a ocupação dos espaços públicos e o envolvimento das juventudes em ações culturais e de defesa de direitos. Essas experiências interagem com o lema do IV ENA: “Agroecologia e Democracia Unindo Campo e Cidade”.

Compartilhe a Carta Convocatória do IV ENA e vamos, juntos/as, fazer um lindo encontro! Rumo ao IV ENA!


22/11/2017

A morte do Velho Chico ameaça a Convivência com o Semiárido

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A Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) soma-se às muitas vozes das lideranças,
comunidades ribeirinhas, povos tradicionais, movimentos sociais, comitês de bacias,
pastorais sociais e especialistas para denunciar a morte do Rio São Francisco e exigir do
Estado brasileiro ações imediatas para reverter tal quadro de penúria, abandono,
exploração, descaso e privatização de suas águas.
O rio totalmente brasileiro sustenta milhares de ribeirinhos nos 160 municípios que banha,
ao longo dos cinco Estados que percorre: Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e
Sergipe. O rio é fonte de vida e renda para quem vive em seu entorno e garante vida
digna para muita gente que vive no Semiárido. Passa, no entanto, por um dos piores
momentos de sua existência.
Ao analisar todos os números de vazão do rio desde 1931, constata-se que, atualmente, o
Velho Chico apresenta seus piores índices: menor quantidade de água no seu leito;
menor quantidade de água no conjunto dos reservatórios (em torno de 5% do volume útil);
menores vazões praticadas, com destaque para Sobradinho, que foi construída para
garantir uma vazão segura de 2.100 m³/s e hoje não garante sequer 590 m³/s.
Na foz, a vazão média que antes era de 2.943 m³/s, não ultrapassa os 554 m³/s. Como
consequência, o mar avança “rio adentro” por mais de 50Km e já causa um colapso no
abastecimento de água potável para as populações rural e urbana e aumento dos casos
de hipertensão dos moradores por conta da alta taxa de salinidade da água.
Esta situação não é resultado apenas dos seis anos prolongados de estiagem que passa
a região, mas, sobretudo, do desmatamento do Cerrado e dos usos ligados à irrigação,
mineração e transposição de águas.
Quando se amplia o olhar para a Bacia do São Francisco, a situação parece ainda mais
grave. O rio e seus afluentes ocupam uma área de 641.000Km², ou seja, 7,5% do
território brasileiro. Neste percurso que abrange o Distrito Federal e os Estados de Goiás,
Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, o manancial contava com mais de
150 afluentes ou rios tributários. Muitos destes não existem mais ou estão em vias de
extinção. Sua diversidade biológica é formada em grande parte pelo Cerrado e pela
Caatinga, e nestes espaços vivem mais de 16,5 milhões de pessoas, entre povos
originários, povos negros e europeus, espalhados pelos campos e cidades.
A exploração degradante da Bacia teve início com a chegada dos colonizadores por volta
de 1.500 e se prolonga e se mantém até os nossos dias, com a mineração, os vários
projetos de barragens, derrubada da Caatinga e do Cerrado. Com essas construções,
todo ciclo biológico foi alterado, com duas finalidades principais: gerar energia e
segurança hídrica para grandes perímetros irrigados. Instala-se na Bacia o Projeto
Desenvolvimentista lastreado pelas grandes obras de infraestrutura.
Endereço: Rua Monte Alverne, 287 – Hipódromo – Reci 2 fe / PE. CEP: 52.041-610
Tel: (81) 2121 7666 – www.asabrasil.org.br – asa@asabrasil.org.br
Articulação Semiárido Brasileiro
Em 2012, a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba
(CODEVASF) encomendou ao setor de engenharia do Exército Norte-Americano um
estudo sobre a navegabilidade do rio. Um dos pontos do estudo era descobrir se o forte
assoreamento, implicando grande quantidade de dejetos no rio, era resultado do
desmoronamento das margens ou do assoreamento dos afluentes. A conclusão,
divulgada apenas parcialmente neste final de 2017, é devastadora: pelo assoreamento
são despejados no curso do rio, a cada ano, nada menos que 23 milhões de toneladas de
sedimentos, sendo a maior parte causada pelo assoreamento dos afluentes resultante da
ampliação dos perímetros irrigados. O que vem ocorrendo com o São Francisco nada
mais é do que a consequência de um modelo de desenvolvimento baseado na
depredação acelerada das condições básicas das diversas formas de vidas, em nome do
que chamam de progresso.
Os mais de 500 anos de exploração do rio, em especial o barramento de suas águas,
provocaram o assassinato e expulsão de povos originários dos seus territórios,
escravização de povos negros, alagamento de grandes áreas e inundação de cidades
ribeirinhas, devastação das matas, águas demandadas e poluídas. O Cerrado está sendo
destruído! Em seu lugar, implanta-se o agronegócio com suas monoculturas para
exportação e a mineração, o que provoca a destruição das áreas de recargas de águas
da Bacia. A Caatinga está sendo retirada para dar lugar à fruticultura e à cana-de-açúcar
irrigada. Este desmonte da cobertura vegetal natural provoca o entulhamento do rio e,
neste cenário de devastação e exploração das águas do Velho Chico, espalham-se
diversos conflitos por terra e águas dos povos tradicionais que resistem em luta. Ao
analisar a iminente morte do São Francisco, pesquisadores/as apontam que a solução é
paulatina e se dará a médio e a longo prazos, com o processo de desconstrução das
barragens instaladas ao longo do curso do rio. Mas, para que o manancial volte ao seu
leito natural, é necessária muita vontade política.
A agenda em pauta é a disputa de projetos e as sociedades brasileira e internacional
precisam se posicionar! Vivenciamos a disputa injusta entre o projeto do lucro que a
qualquer custo prioriza a acumulação de riqueza por meio do saque dos bens naturais
públicos e da concentração e o projeto do Bem Viver que tem na sua gênese o equilíbrio
nas relações entre humanos e natureza. Neste âmbito, a ASA Brasil se manifesta
denunciando o projeto que provoca o assassinato paulatino da Bacia do Rio São
Francisco e se posiciona firmemente na defesa e na construção do projeto de vida da
Bacia, tendo como base o paradigma da Convivência com os biomas que a compõem.
Semiárido Brasileiro, 20 de novembro de 2017
Coordenação Executiva da ASA Brasil


31/10/2017

Agricultores/as Experimentadores/as do Araripe realizaram o IV Encontro da rede Araripe

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Fotos e informações: Ariagildo Vieira/ CAATINGA

Nos dias 25 e 26 de outubro, aconteceu na cidade do Crato/CE, o IV Encontro da Rede de Agricultores/as Experimentadores/as do Araripe, reunindo 99 participantes entre agricultores/as, técnicos/as, pesquisadores, professores de universidades e militantes de movimentos sociais. Esse foi um dos encontros em preparação ao IV Encontro Nacional de Agroecologia (ENA) que acontecerá no final de maio e início de junho de 2018, em Belo Horizonte/ MG, promovido pela Articulação Nacional de Agroecologia e tem como Lema “Agroecologia e Democracia Unindo Campo e Cidade”.   O Encontro aconteceu no auditório da Universidade Federal do Cariri (UFCA), reuniu agricultores/as experimentadores/as dos estados de Pernambuco, Ceará e Piauí. O debate teve início com uma análise de conjuntura, percebendo os principais desafios postos a agricultura familiar, especialmente no cenário atual, que é totalmente desfavorável e desafiador. Durante o encontro foram realizadas visitas a experiencias agroecológicas com juventudes, Organização comunitária, cultura, extração de óleos de plantas nativas, Meliponicultura.

Na noite do dia 25 aconteceu na praça da Sé, uma feira, onde participantes do encontro comercializaram e realizaram trocas de produtos, momento muito rico em manifestações culturais, vários grupos deixaram sua mensagem cultural através de danças, músicas e poesias. Para a agricultora Silvanete Lermem, que participou do encontro foi um momento de grande importância: “Esse é o encontro em que celebramos juntos as vivencias, as culturas diversas, aprendizados, riquezas, esse é um espaço em que nós celebramos, mas também denunciamos a violação dos direitos, fizemos uma análise de conjuntura, onde percebemos o quanto nossos direitos estão sendo massacrados, e saímos com a certeza do quanto precisamos nos unir e lutarmos juntos/as”

No último dia de encontro foi eleita uma lista de prioridades a serem discutidas na Rede Araripe, esta lista será disponibilizada no relatório final do encontro. O V encontro acontecerá em Araripina/PE, no mês de Agosto de 2018.


27/06/2017

Por que não é viável criar bois no Semiárido?

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A criação animal é uma das atividades humanas que faz parte da história dos povos do Semiárido. Cabras, ovelhas e bodes – animais de pequeno porte – estão na base da convivência das famílias camponesas com a região. Na cultura popular, são as figuras do vaqueiro e do boi que permeiam das artes às festividades do sertanejo e da sertaneja. Também estão nos noticiários e nos documentários que, por vezes descontextualizados, constroem uma realidade que coloca nas estiagens a culpa pelas carcaças de boi espalhadas pelo sertão. “É a seca.” Será mesmo?

Por que não é viável criar bois no Semiárido?

“A região do nosso Semiárido é característica pelas chuvas menores que a evapotranspiração – então você tem um déficit hídrico e boa parte do ano vai estar seco. A pecuária é mais adequada quando ela vive do pasto nativo”, é o que afirma José Moacir dos Santos, presidente do Conselho de Segurança Alimentar (Consea) da Bahia pelo Irpaa, organização da qual é Coordenador do Eixo Produção Agropecuária e Extrativismo. Para Moacir, diante de um cenário geral, os animais de pequeno porte podem viver de pasto nativo, não necessitando de lavoura cultivada ou de ração comprada. A realidade da criação, importante acrescentar, é de uma lotação de unidades animais acima do que o pasto nativo comporta. Há mais animais do que um hectare do Semiárido pode oferecer. Num cenário de seca, as famílias agricultoras que possuem criação de pequeno porte estarão mais bem adaptadas e os animais não sofrerão tanto com a falta de alimentação que gera as conhecidas imagens de carcaças tão difundidas pela mídia ao abordar as estiagens. Isso também evita a compra de alimentação como o farelo de soja. Produzido em larga escala através do uso de agrotóxicos em plantações transgênicas, a ração a base desse farelo põe em risco a qualidade dos produtos como carne e leite, a saúde da agricultora e do agricultor e a expansão dessas monoculturas devastadoras sobre os biomas da região.

A criação de bois e vacas precisa de uma grande quantidade de água e terra com pasto para ser viável; diferente da pecuária baseada na criação de pequeno porte, como a de cabras, bodes e ovelhas. De acordo com a cartilha produzida pelo Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – Irpaa para criação de cabras “a quantidade e qualidade do pasto [necessário para a criação] depende das condições de solo, quantidade de chuva e tratos culturais. Cada região tem seu potencial produtivo diferenciado.” Se consideramos uma quantidade próxima de consumo de pasto entre os dois tipos de criação, ainda segundo a entidade, uma vaca consome o mesmo que 8 cabras – que, por sua vez, produzem mais leite e têm mais crias durante o ano.
O Semiárido brasileiro tem animais nativos de pequeno porte, diferente de outras regiões no mundo. A região e seu pasto nativo, que é formado pela vegetação da Caatinga e do Cerrado, naturalmente, não suportam a criação de animais de grande porte, principalmente nas épocas do ano em que essa vegetação não é verde e não oferece alimentação adequada. Embora haja áreas bem irrigadas e que poderiam suprir a demanda por mais pasto, elas só correspondem a 3% do Semiárido e estão em sua maioria ocupadas pelos modelos do agronegócio.

Mas essa não é a única questão. “O boi, vive em regiões que têm capim, como há em grandes quantidades nas savanas da África. A Caatinga não oferece naturalmente esse capim. Inicialmente, na ocupação dessas terras, o vaqueiro botava fogo na vegetação. Havia além do objetivo de queimar os cactos para o boi comer, a necessidade de criar pastos com capim… E assim o boi foi degradando a Caatinga ao longo do tempo”, diz Moacir quando acrescenta que os animais de grande porte trazem para a Caatinga o problema do desmatamento e, por conseguinte, da desertificação.

Tem a mesma opinião Francisco de Assis Batista, que é diretor da Associação Cristã de Base – ACB, no Crato/CE, e também criador de caprinos na Chapada do Araripe. “Pra gado tem que desmatar. Nós começamos estudando os sistemas agroflorestais – isso foi o que nos incentivou e nos mostrou, quando a gente avalia nossa vegetação, que ela não comporta o animal de grande porte. Nossa Caatinga é mais fechada, é mais tortuosa [do que as savanas africanas]. Não dá para um touro ficar passando por ela. Teria que abrir [desmatar] pra ele passar.”

Seu Batista, como é conhecido, cria caprinos e percebeu desde o início que sua propriedade, localizada na parte de cima da chapada, não oferece água ou pasto suficiente para a criação de animais de grande porte. Além disso, o manejo deles precisa de mais pessoas, trabalhadores muitas vezes contratados, o que não é uma realidade das famílias agricultoras. “A cabra é um animal mais rústico, que come até folhas secas. É mais fácil de cuidar. Você pode soltar e ele se alimenta do que a Caatinga tem. É uma criação de capoeira.”

Para Francisca Gomes de Souza, conhecida como Betânia, agricultora do Sítio Samambaia, na região de Araripina/PE, a criação de gado enfrenta problemas tanto por causa do manejo mais dedicado quanto por causa da escassez de pasto e água. Ela e seu esposo, Seu Severino, possuem oito cabeças de gado, grupo que já foi maior, mas que não resistiu às estiagens dos seis últimos anos. A família usa o estrume gerado pelos bois e vacas para a horta onde cultivam a produção vendida na Feira Agroecológica de Araripina. A água do local vem de uma cisterna de 52 mil litros e de um poço. É a água usada tanto para irrigação da horta quanto para a criação animal – que também inclui cabras e ovelhas. Embora a manutenção dos bois e vacas tenha a ver com a adubação da roça (o que evita a compra de adubo de terceiros), Betânia não tem dúvida quando perguntada sobre qual rebanho é mais fácil manter. “Nós criamos animais há muito tempo e daí já dá uma noção do que dá mais trabalho. A cabra, sem dúvidas, é melhor criar pois come menos e dá menos trabalho. O gado talvez seria uma poupança se não houvesse perda por causa da seca. Nós criamos o gado solto. Não é todo mundo que tem pasto e se não tem chuva não tem pasto.”

Seu João Simão dos Santos, agricultor do Sítio Jenipapo (próximo ao Crato/CE), tem um pensamento que também converge nesse sentido. Homem de poucas palavras e de uma simpatia acolhedora, ele tem mais de 70 galinhas, 10 porcos e 8 ovelhas. Ele não cria bois e vacas. “Onde a cabra passa uma semana se alimentando, o boi só passa um dia.” Ele planejou o rebanho pensando no tamanho da sua propriedade e na quantidade de água que tem disponível. No entanto, as estiagens dos últimos anos também trouxeram situações de dificuldade para o agricultor. Emocionado, ele contou que em alguns momentos foi muito difícil por falta de pasto suficiente. O ganho continua pouco, mas Seu João não desiste do manejo de animais. “Gosto de vê-los bonitos!”

“Agronegocinho” – José Moacir e Seu Batista apontaram uma terceira questão sobre a cultura do gado no Semiárido. “Imprime-se uma ideia de poder”, diz Seu Batista. “Existe uma ideia de agronegocinho”, nota Moacir. As duas falas vão ao mesmo sentido: um movimento contrário às lutas camponesas e à agricultura familiar de base agroecológica. Por vezes, as relações de poder estabelecidas influenciam na ideia de que ter e manter o gado coloca o agricultor ou agricultora em um outro lugar e isso pode acabar afastando ou enfraquecendo a própria ideia de agricultura familiar. Quando os rebanhos de ovinos e caprinos diminuem nas estiagens é porque são muitas vezes vendidos para gerar recurso para comprar ração, como a de farelo de soja do agronegócio, para alimentar somente por alguns meses os bois e as vacas. É preciso repensar a viabilidade desse manejo no Semiárido.
Texto: Hugo de Lima – Asacom Foto: comunicação Irpaa

 


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